O fabuloso hábito de o Estado brasileiro trabalhar para oferecer privilégio para a casta que se ocupa do poder
Em Brasília, como se sabe, o costume é pedir um apoio. Uma ajuda. Uma facilidade.
Foi o que fez o Senado em julho de 2008 ao pedir “apoio” para o então diretor geral da Casa, Agaciel Maia, que viajaria em férias com 7 integrantes de sua família para um tour pela Europa (Paris, Roma e Londres, nessa ordem). Agaciel perdeu o cargo recentemente –depois de ter se enrolado com a declaração de sua casa brasiliense à Justiça.
O Itamaraty recebeu o pedido sobre o apoio para as férias de Agaciel e família em julho do ano passado. Como de praxe, repassou a solicitação adiante, para as 3 embaixadas nos países respectivos. Uma operação simples. Mas realizada com dinheiro público. Gastou-se energia que deveria ser consumida supostamente de outra forma. As repartições e departamentos do Estado brasileiro se ocupam de ajudar os doutores a viajar de maneira mais confortável. Nas férias.
A circular 68786 do Itamaraty que pediu o apoio ao “Dr. Agaciel” é um documento que vale a leitura por sintetizar de maneira completa e acabada a tradição patrimonialista brasileira. Uma imagem do texto segue abaixo. A Folha de hoje (reprodução também abaixo) enviou cópia dessa “solicitação de apoio” ao Ministério das Relações Exteriores, pedindo que fosse formalmente identificada e validada. A assessoria do Itamaraty localizou o número no sistema, confirmou a veracidade do papel e disse que essa prática é comum... Aliás, há até uma “Assessoria de Relações Federativas e Parlamentares” que se incumbe de todas essas solicitações.
Eis a circular:

A seguir, o texto publicado na Folha de hoje:
Senado aciona Itamaraty em viagem de Agaciel
FERNANDO RODRIGUES
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Quem é deputado, senador, ministro, juiz ou ocupa algum cargo de chefia no serviço público compartilha um hábito típico de Brasília: pedir um tratamento especial, um apoio ou algum privilégio por onde passa. Há exceções, mas a regra quase nunca falha.
É raro ver congressistas em filas de aeroportos. Alguns ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) [na realidade, confirmados, 1 do STF, com solidariedade de colegas, e 1 do STJ], soube-se nesta semana, pedem oficialmente dispensa de certos procedimentos quando em viagem ao exterior –livram-se, por exemplo, do desconfortável processo de triagem das suas malas nos postos de alfândega.
Até funcionários públicos de alto e médio escalão quando saem em férias consomem tempo e energia do Estado. É o caso do ex-diretor-geral do Senado Agaciel Maia. Ele viajou com sete integrantes de sua família para Londres, Paris e Roma em julho do ano passado.
O Ministério das Relações Exteriores enviou a "circular telegráfica 68786" para as embaixadas dos três países a serem visitados por Agaciel. Começa assim o documento do Itamaraty: "Solicitação de apoio. Informo e rogo providências. A pedido do senador Garibaldi Alves, presidente do Senado Federal, muito agradeceria prestar apoio ao diretor-geral daquela Casa legislativa, doutor Agaciel da Silva Maia, e família, na chegada e na partida a essa capital".
A seguir, são citados os voos nos quais Agaciel e sua família estarão, os hotéis onde fizeram reservas e as datas de estada em cada capital europeia. Nesses casos, informa a assessoria de imprensa do Itamaraty, alguém do consulado espera o viajante no aeroporto, ajuda no desembaraço de bagagens e faz o transporte até o hotel.
O Itamaraty não tem registro de quantas vezes esse tipo de operação é realizada por ano nem uma lista disponível e pública de todos os requerentes. Mas há até uma sessão específica para tratar do benefício: Assessoria de Relações Federativas e Parlamentares.
Garibaldi Alves (PMDB-RN), que presidiu o Senado até fevereiro, diz não se lembrar especificamente dessa viagem de Agaciel. "Mas não acho impossível eu ter solicitado, talvez até por telefone, para que dessem um apoio a ele, que era diretor da Casa", diz o senador.
Agaciel comentou o caso ao jornal "Correio Braziliense" de ontem [anteontem, 1.mai.2009]: "Foi a primeira vez que estive naquelas cidades, com minha mulher e filhos. Paguei tudo do meu salário. Não houve dinheiro do Senado. Fui o diretor que menos viajou com recursos da Casa".
A respeito do apoio requerido para sua chegada e partida, Agaciel Maia esclarece que a assistência se deveu ao fato de ele ter explicado ao pessoal das embaixadas como funcionavam os programas da TV Senado. Não fica claro em sua resposta a razão pela qual foi necessário discorrer sobre esse tema em Londres, em Paris e em Roma.





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