Os números da pesquisa Datafolha agravam e aprofundam a crise interna do PSDB. O partido agora passa por uma situação surrealista: seu candidato hoje mais forte nas pesquisas para derrotar Lula é um completo azarão entre os próprios tucanos.
Os números do Datafolha mostram que o prefeito de São Paulo, José Serra, é o mais forte numericamente para encarnar o anti-Lula. Só que dentro do PSDB o governador paulista Geraldo Alckmin é o favorito na chamada “base partidária”.
É bom que se diga logo: Lula ganha de todos se a eleição fosse hoje. No primeiro e no segundo turno.
Serra perde de Lula por 5 pontos de diferença num eventual segundo turno (48% a 43%). Alckmin toma uma sova de 18 pontos (53% a 35%).
No primeiro turno, no cenário mais provável (com todos os nanicos já anunciados + Garotinho), Lula tem 39% contra 31% de Serra. Na lista com Alckmin, Lula vai a 43% contra 17% do tucano –e fatura no primeiro turno.
Os responsáveis maiores por essa barafunda tucana são os dois principais caciques que comandam o processo: Fernando Henrique Cardoso e Tasso Jereissati (ler mais detalhes num post de ontem à noite, logo aí abaixo).
Enquanto Alckmin passou os últimos 3 meses viajando pelo país acertando apoios, FHC e Tasso ficaram de papo para o ar. Ontem, foram até o governador de São Paulo. Era tarde. Aliás, a reunião foi marcada às pressas. Por quê? Porque FHC precisa ir viajar para o exterior... Básico.
O comandante desse processo, se tiver interesse em revertê-lo, precisa fazer um tour pelo país e tentar reunificar o PSDB. A impressão geral é que já está um pouco fora da hora para tal empreitada.
Visão alckmista
Os alckmistas tentam usar o argumento de que o governador paulista é o que mais tem espaço para crescer ao longo da campanha. É uma hipótese. Só isso. Não há como garantir sucesso nessa empreitada.
Outra carta jogada na mesa é o fato de Marta Suplicy entrar reforçada na campanha pelo governo do Estado de São Paulo. A petista poderá dizer: “Eu falei que o Serra não se importava com a cidade de São Paulo. Ele só queria um trampolim para voltar ao plano federal”. Em seguida, dá-lhe imagem do documento assinado por Serra e registrado em cartório dizendo que não abandonaria a prefeitura.
Ontem, Alckmin deu uma leve recuada: “Não há razão para discutir prévias neste momento. Não há razão para fazer correria. Temos até março para definir o candidato”. É uma mexida tática. O tucano quer escoimar toda aparência de arrogância que possa ser inferida da sua campanha interna.
Mas no jantar do qual participou à noite, em Brasília, com a bancada tucana na Câmara, ficou claro que Alckmin é hoje o favorito internamente. “Pelo levantamento e sentimento da bancada, ela apóia Alckmin. A maioria apóia Alckmin e nosso sentimento não mudou”, disse o deputado Sílvio Torres (SP).
Visão serrista
O prefeito acha que o fato de estar bem à frente de Alckmin nas pesquisas de intenção de voto acabará fazendo valer a lei da gravidade: a candidatura cairá no seu colo naturalmente. Só que essa hipótese fica cada vez mais complexa dado o avanço do governador paulista na disputa interna da sigla.
Nunca é demais lembrar: Serra é o único que ainda força a realização de um segundo turno com Lula.
Robustecido pelo Datafolha, Serra deve começar autorizar seus interlocutores a dizerem que ele aceita uma disputa criteriosa com Alckmin (não uma prévia). Por exemplo, um colégio de congressistas e dirigentes partidários. Até que ocorra esse processo, em tese, o prefeito trabalharia para reverter os avanços de Alckmin.
Lula
O petista distribui dinheiro aos pobres, visita obras e nada de braçada enquanto os tucanos se esfalfam na disputa interna. Os números do Datafolha reforçam a tropa aliada na Esplanada dos Ministérios a levarem seus partidos para a seara lulista. Com a derrubada da verticalização, pode pintar aí uma “big aliança” em torno do PT no plano federal.
PMDB
É uma catástrofe o desempenho de Rigotto, que fica numa posição abaixo do PSOL.Garotinho se mantém onde sempre esteve, na redondeza dos 10%. Esses números anabolizam os governistas do PMDB que vão, nas próximas duas semanas, tentar melar a prévia marcada para o dia 19 de março. A idéia é 1) tentar entregar o partido para Lula ou 2) pelo menos, não ter candidato.
Uma coisa é certa. O PMDB ter ou não ter candidato é determinante para a eleição ter ou não ter um segundo turno